Guia de rótulos
Sardina pilchardus vs Sardinella: que peixe está realmente na sua lata?
Duas latas podem dizer “sardinhas” e conter peixes diferentes. Não é escândalo: é taxonomia e rotulagem. Este guia explica a sardinha europeia em torno da qual se construiu a indústria conserveira portuguesa, as espécies de Sardinella enlatadas noutras paragens e as três linhas do rótulo que mostram o que está mesmo a comprar.

Sardina pilchardus: a sardinha europeia
A Sardina pilchardus é a única espécie do seu género. É um peixe pequeno, gordo e de cardume da família dos clupeídeos (Clupeidae), presente no Atlântico Nordeste e no Mediterrâneo, do Mar do Norte à costa do noroeste de África. Quando um português diz sardinha, é deste peixe que fala.
A indústria conserveira portuguesa cresceu à sua volta. A partir da segunda metade do século XIX abriram fábricas em Setúbal, Matosinhos, Peniche, Portimão e Olhão para transformar a sardinha descarregada pelas traineiras do cerco. Casas como a Ramirez (1853), a Minerva, a NURI e a Bom Petisco continuam a enlatar Sardina pilchardus à mão, normalmente em azeite, tomate ou com um pouco de piri-piri.
A época conta. O peixe está mais magro depois da desova de inverno e ganha gordura no fim da primavera e no verão, por isso as fábricas valorizam as capturas de verão para as latas mais ricas.
Sardinella: um género, não um só peixe
Sardinella é um género distinto da mesma família Clupeidae, com mais de vinte espécies reconhecidas. Entre as mais importantes comercialmente estão a sardinela-lombuda (Sardinella aurita), a sardinela-da-madeira ou plana (Sardinella maderensis) e a sardinha-oleosa-indiana (Sardinella longiceps).
Não partilham uma única origem. A sardinela-lombuda ocorre nos dois lados do Atlântico e no Mediterrâneo; a sardinela-da-madeira é muito pescada ao largo da África Ocidental; a sardinha-oleosa-indiana é essencial no Mar Arábico e na costa sudoeste da Índia; outras espécies são capturadas no Sudeste Asiático. Todas são comestíveis, consumidas frescas e em conserva, e importantes para a segurança alimentar costeira.
A sardinela não é, portanto, uma sardinha de segunda. É outro grupo de peixes aparentados, cada um com o seu tamanho, textura e tradição de pesca.
O que diz realmente a norma do Codex
A referência internacional é a norma Codex Alimentarius CXS 94-1981, relativa a sardinhas em conserva e produtos do tipo sardinha. Nela, a Sardina pilchardus aparece isolada e segue-se uma lista de outras espécies, incluindo várias Sardinella, Sardinops, Clupea, Sprattus e outras, que podem ser usadas em produtos do tipo sardinha.
Segundo o Codex, a designação simples “sardinhas” é reservada à Sardina pilchardus. Os produtos feitos com as outras espécies listadas chamam-se “sardinhas X”, em que X é um país, uma zona geográfica, a espécie ou o nome comum da espécie, de acordo com a lei e o costume do país de venda e de forma a não induzir o consumidor em erro.
O Codex não é, por si só, lei. Cada país ou bloco comercial define as suas regras e o grau de alinhamento com a norma varia. Por isso, leia a linha da espécie em vez de confiar na frente da lata.
Sabor, textura e nutrição: com honestidade
Em Portugal, a Sardina pilchardus é apreciada pela carne firme e o sabor limpo e rico, que casa bem com azeite. As latas de sardinela variam muito consoante a espécie, o tamanho e a receita, e muitas são excelentes. A diferença que se nota depende tanto da época de captura, do manuseamento e da fábrica como da espécie.
Do ponto de vista nutricional, ambas são peixes pequenos e gordos que fornecem proteína, gorduras ómega-3 e, quando as espinhas ficam, cálcio. Os valores exatos dependem da espécie, da época, do teor de gordura e do molho, por isso compare a tabela nutricional da lata concreta em vez de assumir que um género é sempre melhor.
Porque as conservas portuguesas estão ligadas a uma espécie
As conserveiras portuguesas fazem parte de uma cadeia local: as traineiras pescam a sardinha ibérica junto à costa, o peixe chega depressa à fábrica e operárias experientes limpam-no e enlatam-no à mão. Os produtores indicam muitas vezes na lata a espécie e a origem portuguesa, porque é essa cadeia que dá sentido ao produto.
É nisso que a SARDINHAS se concentra: casas portuguesas que enlatam a sardinha europeia, com a espécie, os ingredientes e o produtor no rótulo, para que possa confirmar tudo por si.
Sardina pilchardus e Sardinella num relance
| Sardina pilchardus | Sardinella spp. | |
|---|---|---|
| Taxonomia | Espécie única, género Sardina, família Clupeidae | Género com 20+ espécies (ex. S. aurita, S. maderensis, S. longiceps), família Clupeidae |
| Regiões típicas | Atlântico Nordeste e Mediterrâneo | Depende da espécie: Atlântico, África Ocidental, Mediterrâneo, Índico, Sudeste Asiático |
| Tradições conserveiras | Portugal, Espanha, França, Marrocos | África Ocidental, Índia, Sudeste Asiático e outros |
| Designação Codex | “Sardinhas” | “Sardinhas X” (país, zona, espécie ou nome comum) |
| Usos em conserva | Inteiras ou filetes em azeite, tomate, especiarias | Óleo, salmoura, molhos de tomate e picantes; também farinha de peixe e mercado de fresco |
| Nutrição | Peixe gordo: proteína, ómega-3; ver a tabela da lata | Peixe gordo: proteína, ómega-3; varia com espécie e receita |
Como verificar uma lata em 30 segundos
- Procure a espécie: “Sardina pilchardus” nos ingredientes ou por baixo do nome do produto. Outro nome de espécie indica um produto do tipo sardinha.
- Leia os ingredientes: peixe, óleo (azeite ou outro óleo vegetal), sal e molho. Alergénios, como o leite nos molhos de manteiga, têm de estar destacados.
- Distinga conserva de captura: “Produzido em Portugal” diz onde a lata foi feita. A zona de pesca, quando indicada, diz onde o peixe foi capturado; nem sempre coincidem.
- Confirme o produtor, o lote ou a data de consumo preferencial e a tabela nutricional se a gordura ou o sal forem importantes para si.
Latas portuguesas de Sardina pilchardus
Três sardinhas portuguesas clássicas em azeite do nosso catálogo. Veja a página do produto para os detalhes completos do rótulo.
Perguntas frequentes
A sardinela é uma sardinha falsa?
Não. Sardinella é um género de peixes verdadeiros e comestíveis da mesma família da sardinha europeia. O Codex inclui várias espécies de Sardinella nos produtos do tipo sardinha; apenas têm uma designação diferente da Sardina pilchardus.
Uma lata de sardinela pode chamar-se só “sardinhas”?
Segundo o Codex CXS 94-1981, a designação simples “sardinhas” é reservada à Sardina pilchardus e as outras espécies usam um nome qualificado, como “sardinhas X”. As regras nacionais variam, por isso verifique sempre a espécie no rótulo.
A sardinela é menos saudável do que a Sardina pilchardus?
Não há regra geral. Ambas são peixes gordos com proteína e ómega-3. Os valores dependem da espécie, da época e da receita, por isso compare as tabelas nutricionais das latas que está a escolher.
“Produzido em Portugal” significa que o peixe foi pescado em Portugal?
Não necessariamente. Indica onde o peixe foi transformado e enlatado. Se quiser saber a origem do peixe, procure na lata a informação sobre a zona de pesca.
Que espécie usam as latas da SARDINHAS?
Não assumimos uma única espécie para todos os produtos. As conserveiras portuguesas enlatam tradicionalmente a sardinha europeia, Sardina pilchardus, mas confirme sempre a espécie em cada lata, incluindo as apresentadas neste guia, através do rótulo ou da página do produto.
Fontes
- Codex Alimentarius — CXS 94-1981, Standard for Canned Sardines and Sardine-type Products (FAO/WHO)
- Codex Alimentarius — list of official standards
- EUMOFA — European Market Observatory for Fisheries and Aquaculture Products
- EUMOFA — market analysis and species case studies
As regras de rotulagem variam de país para país; este guia resume a referência internacional do Codex e não constitui aconselhamento jurídico.



